Sujeito ou objeto?

16 de agosto de 2010

Interesssante o diálogo que presenciei dias atrás. O assunto era o endurecimento por parte do INSS quanto à questão de afastamento por doença no trabalho. Segundo meus colegas de conversa, o INSS agora tem relutado em aceitar o diagnóstico dos médicos das empresas, e estão enviando o trabalhador de volta ao trabalho com recomendações de tarefas adaptadas. Isto realmente passou a ser um problema, pois, a empresa não quer o ônus de um trabalhador “meia colher” e o INSS não suporta a carga de salarios por afastamento.

A questão é; como fica o sujeito? O trabalhador, claro.

Ser jogado de um lado pelo outro, como um fardo indesejável certamente não é o melhor dos mundos para ninguém, principalmente para aqueles que em tese estão com alguma patalogia.

Um grande amigo, até alguns anos atrás supervisor de produção e  atualmente poeta assumido - Recomendo seu livro, Travessia – Zino Mendes, uma vez intercedeu de forma brilhante sobre um tema paralelo a este que estou tratando. Em uma reunião de supervisores comandada pelo RH a  companhia discutia se os afastados deveriam ou não receber a PLR,  já que não haviam participado dos processos produtivos durante o ano. Alguns supervisores inclusive alegaram que muitos dos afastados se aproveitavam da lei para simular doenças e desta forma não mereciam o bônus extra de final de ano. Moisés, (Zino) levantou-se e disse em alto e bom som:

- Deveríamos nos envergonhar de estarmos discutindo esta questão nestes termos. Se houvesse 100 pessoas afastadas e dentre elas apenas 1 verdadeiramente doente (se doença fôsse apenas as explicitas), por respeito a esta, deveríamos pagar a PLR incondicionalmente. 

O Moisés tem razão. Christoph Dejour, o criador da Psicopatologia do trabalho, (recomendo seu livro “A Loucura do Trabalho” ) mostrou com pesquisas de campo e fundamentado com as teorias psicanaliticas o estrago que a organização do trabalho pode fazer com o trabalhador, quando o mesmo é tratado como objeto. É de Dejour a resposta à teoria ergonômica fundada no mecanicismo que impera em nossos ambientes de trabalho. O trabalhador é sujeito, e uma boa prática para prevenir Burnout, Stress e depressão no ambiente do trabalho, é criar um ambiente onde a organização do trabalho privilegie a liberdade do trabalhador em criar.

Este é o objetivo principal das equipes semi-autônomas – Resgatar o trabalhador como vetor da organização, como sujeito e não como objeto. TPM quando pensado desta forma ajuda.

Para meditar:

” A angústia pode inpulsionar, mas também antecede o sofrimento, e isto ocorre quando cremos que  não há mais possibilidades. O Sofrimento é o  limite, antes da doença.”

boas reuniões a todos ( a todos).

Modelos de gestão e discernimento é uma boa combinação.

25 de julho de 2010

Muitos dos modelos de gestão que volta e meia estão em voga surgiram no passado. Alguns há mais de 20 anos.

Ao analisar estes modelos, a literatura atual por vezes não leva em consideração contexto social e econômico. Se o mundo corporativo é vetor e objeto no meio ambiente, não há dúvida que considerar contexto onde se desenvolvem estes modelos é de suma importância para o sucesso da implementação – vide o conceito de autopoiese.

 -”O Sr. crê que é importante o operador de máquinas fazer lições de um ponto ou outros formulários de disseminação do conhecimento manualmente? com canetinhas? Assim para que êle se preocupará com os detalhes e se concentrará de fato no tema de conhecimento.”

Esta questão é real e normalmente eu respondo, que, a cena composta por um grupo de operadores desenhando com canetinhas coloridas, alguma parte  da máquina para ilustrar um procedimento é singela e meiga. Mas é cara e sem propósito. Se isso for conveniente ou se  não há remédio, bem, faça-o, mas com o advento da máquina digital, uma recomendação como esta, criada nos anos 70 deveria ser ignorada.

Não há necessidade dos detalhes serem valorizados a este ponto. Afinal de contas, a disseminação é no gemba, e o processo está  lá.

Como me disse um cliente  – Na primeira guerra mundial havia a cavalaria…Em todos os exércitos. Uma unidade de manobras rápidas e contundentes. Hoje ainda existe a cavalaria como  parte da infantaria. Mesmo conceito, mas não há cavalos e sim tanques e veículos rápidos.

Perguntem para um grupo de mantenedores em uma planta de tecnologia o que êles acham de desenhar os procedimentos. Talvez êles não vão dizer tudo o que sentem, mas estou seguro que esta tarefa os remetem à pré escola…no dia dos pais, etc….  

Que meigo…que caro!!!!

Boas fotos, bons procedimentos e tenham sucesso na padronização.

Quem tem medo dos Chineses?

31 de maio de 2010

Uma técnica de change management, que visa mobilizar os funcionários para aderir a um modelo de gestão ou programa em andamento é a “criação de uma crise” - A ameaça chinesa tem servido muito bem para este propósito, pelo menos é muito utilizada.

A evolução da participação dos produtos chineses nos fornecedores de peças  e bens para a industria de bens de capítal, incluindo aqui aquelas que atuam em projetos de infraestrutura,  demonstra que esta preocupação não é infundada, estranho é a surpresa que isso tem causado.

Podemos culpar o câmbio, mas façamos um exercicio rápido…E se as empresas chinesas instalassem plantas manufatureiras na fronteira com o Brasil ? Será que com a eficácia e produtividade que temos hoje seríamos páreo para este concorrente?

Não precisamos criar uma crise para concientizar a força de trabalho  de que necessitamos sempre melhorar. Quem optou pela economia de mercado já sabia que este stress é a tônica do sistema. Necessitamos de um modelo de gestão que privilegie a busca da perfeição, em todos os níveis. A razão para isso os funcionários já sabem, afinal de contas, todos assistem o Jornal Nacional à noite, conversam com amigos desempregados nos finais de  semana, e tem filhos,  jovens que vivem a paranóia da capacitação.

Vamos prover estes trabalhadores de  uma razão para não ter medo. Vamos arma-los para a luta.

A busca pela Excelência Operacional na Manufatura – final

3 de maio de 2010

Não há nada de novo na politicas e indicadores evidenciados pela pesquisa que ora avaliamos. A diferença entre as companhias best-in-class e suas seguidoras está na forma de implementar e praticar estas politicas de gestão. A relevância do artigo está justamente neste ponto – Capabilidades importantes para a o sucesso destas politicas que estão presentes nas empresas best-in-class. São elas:

1- Colaboração efetiva em todos os níveis (Sistemas integradores ou modelos que integram os níveis são essenciais)

2- Times de melhoria contínua são formados por competencias complementares e oportunas – sem limites geográficos, quando aplicavel.

3- Qualidade na execução – tanto em produtos quanto em processos. Muito esforço na qualidade de processos, inclusive com investimentos na automação de fluxos quando possível.

4- Busca incessante da sincronização entre demanda e produção – independentemente das dificuldades. Takt Time é conhecido e evidente para todos.

5- Visibilidade de toda a cadeia.

Em todos estes pontos enumerados vejo a presença de filosofias de gestão já conhecidos, como Lean e a sua base - o modelo  TPM (Total Productive Management).

O diferencial está no envolvimento das pessoas. Nenhum modelo de gestão pode ter sucesso se não for desenhado com envolvimento dos próprios funcionários que serão impactados. Sem entender o significado das diretrizes não há compromisso.

A velha tríade ainda vale como guia para modelos de gestão:

Definir metas e envolver - Educar e capacitar - Avaliar resultados e reconhecer.

A busca pela excelencia operacional na manufatura (1).

26 de fevereiro de 2010

Continuando o post anterior, considerando a distribuição dos percentuais mostrados , fica claro que há uma sinergia entre os papéis desempenhados na cadeia de suprimentos, e a questão é, quais são os diferenciais apresentados pelas empresas que tem tido exito em alinhar toda sua estrutura com a estratégia definida para o negócio.

Os pesquisadores utilizaram 3 indicadores base:

Índice de entrega – Produtos entregues de acordo com o compromissado.

OEE – Eficácia global do equipamento – produção. (calculado a partir dos índices de Utilização, Performance e Qualidade).

Atendimento às Normas Regulatórias (Production Compliance).

Avaliando o OEE temos 3 classes de empresas:

Best-in-class (20% da distribuição) = 92%

Média  (50% da distribuição)= 81%

Retardatarios “Laggard”  (30% da distribuição)= 71%

Os autores vão diretamente ao ponto principal. Empresas que consideram eficiencia na manufatura como um importante vetor para a excelencia operacional, via de regra estão entre os Best-in-class.  As empresas que não conseguem sair do grupo retardatario, deveriam considerar external manufacturing, já que não tem “core competency” em operações.

Não concordo com a afirmação. As coisas não são tão simples. O desenvolvimento de  External Manufacturing não pode ser tratado como um processo de transferência de problemas, e as variáveis para a eficiencia operacional são dominadas pelo mercado. A questão não é a falta de competência, e sim querer a eficiencia operacional.

As empresas best-in-class tem algumas coisas em comum.

  • A Eficiencia operacional é parte da agenda da direção.
  • Continuo desenvolvimento de praticas e procedimentos, e assim que estes emergem como melhor pratica, são adotados.
  • O ambiente fabril é na sua maioria  gerenciado visualmente.
  • São hábeis em relacionar metricas operacionais e financeiros – em todos os níveis.

Este último item me parece a chave da sustentabilidade na melhoria contínua da operação. Quando o trabalho faz sentido aos executantes, o clima positivo essencial para a melhoria contínua está criado.

Encerrando, para garantir coesão a todas estas iniciativas, estas empresas embarcam sériamente em metodologias como Lean ou Excelência Operacional, sustentados por centros de excelência e de conhecimento.

Eu adiciono ao artigo, a importância de processos de gestão que efetivamente abordam a interação homem-máquina, como o modelo TPM (Total Productive Management), a base para a manufatura enxuta, que com seus 7 pilares bem estruturados promovem o envolvimento de todos para a excelencia operacional.

A busca pela Excelência Operacional na Manufatura

1 de fevereiro de 2010

O maior desafio para os executivos de manufatura é traduzir os ganhos de eficiência em “botton line results”. O excelente artigo publicado pelo Aberdeen Group em julho de 2009 – “High Efficiency in Manufacturing Operations”, tenta entender esta dificuldade. Os autores, estudando uma pesquisa realizada em 2008, analisam as razões que levam executivos a investir na melhoria da eficiência em operações.
Aparece como motivo principal a necessidade de aumentar a vantagem competitiva, seguido da pressão por redução de custos, incertezas do mercado, assegurar cumprimento de regulatórios e por último aumentar “cash flow” em operações.
Como abordagem para estas pressões, a grande maioria dos executivos consideram que melhorar eficiência em operações sustenta o negócio e deveria ser base da agenda na manufatura. As estratégias para isso são definidas por “papéis” , e fica claro que o alinhamento de toda cadeia a estes objetivos sincronizando as diversas funções e papéis, é a chave para o êxito sustentável do processo de melhoria e isso ainda é um desafio.
O mais interessante é a importância por função para as estratégias definidas pelos participantes da pesquisa (por papéis) – Considerando Manufatura, Qualidade, IT e Supply Chain – onde as empresas estão focando seus esforços, nesta ordem (os grifos são do blog):
1-Melhoria da eficiência – A importância é igual para todas as funções.
2-Melhorar colaboração entre grupos funcionais – Muito importante para Supply Chain, e 30% consideraram importante para Manufatura.
3-Melhora na qualidade de execução – Muito importante para qualidade e 30% consideraram importante para manufatura.
4-Sincronizar manufatura com demanda – Peso de 30% para todas as funções.
5-Aumentar visibilidade entre manufatura e toda a cadeia – pouca importância para todos. Nos próximos posts vamos tentar entender a aparente contradição nestes resultados analisando os benchmarkings e indicadores apresentados pela pesquisa.

A abordagem sistêmica da Toyota para redução de custos.

7 de janeiro de 2010

Um artigo no Wall Street Journal de 22 Dezembro descreve como a Toyota está tratando a questão de redução de custos. Foi agendada uma reunião com os fornecedores, para que juntos consigam reduzir o custo da cadeia de valor em 30% nos próximos 3 anos. Esta abordagem envolvendo e fazendo parcerias para melhora dos processos explica o sucesso da Toyota como Business Player. Atitudes unilaterais como definir e delegar metas sem considerar a interação entre fornecedor e manufatura não leva a resultados sustentáveis. Se no programa de melhoria de processos não estão contemplados os fornecedores, como poderíamos esperar que o fluxo de valor melhore? Um bom programa de melhoria associa metas com boas práticas e isto sem dúvida só pode ser feito com a participação ativa dos elementos da cadeia produtiva – fornecedores externos são parte desta cadeia. Pense nisto quando considerar a implementação de modelos de gestão baseados nas práticas da Toyota. Eles melhoram a cadeia de forma sistêmica.

Change Management e os valores individuais

28 de dezembro de 2009

“D- E se os operadores e mecânicos não aceitarem bem as rotinas deste novo processo?”
C- Bem, alguem tem que gerenciar este departamento. Podem ser êles, os operadores e mecânicos.
D- Entendi o recado, mas temos que levar em conta que para capacitar plenamente um funcionário, temos levado em torno de 3 anos.
C- Realmente vocês tem um problema de gestão. Recomendo considerar a implementação deste processo. Haverão funcionários que não se adaptarão, mas serão poucos. O processo de mudança prevê este fato, e o resultado final compensará eventuais turbulências.”

Este não é um diálogo hipotético entre um Consultor (C) e um Diretor de manufatura (D).
Ocorreu e tive a felicidade de ser protagonista como o Consultor, onde minha tarefa era mostrar as vantagens da implementação do processo TPM, baseado em trabalho em equipe e criação de ambiente de aprendizado contínuo.
Estas reuniões sempre são enriquecidas com diálogos como o transcrito acima. Em um clima de argumentação livre, as pessoas sempre mostram suas angústias, e via de regra estas estão relacionadas com pessoas.
A implementação de um novo processo nunca é decidido pelos operários e técnicos. O corpo diretivo sente a necessidade de mudanças sempre que os resultados auferidos estão distantes das metas de negócio.
Quando iniciamos a discussão sobre mudanças, o ponto chave da questão são as pessoas, apesar de discutirmos sobre modelos de competências, sistemas de contrôle, automação etc.
A falta de um modêlo de gestão que alinhe os valores individuais com os da companhia, cria supervisores e gerentes reféns dos funcionários. O ambiente de trabalho não é saudável quando isso ocorre, e os funcionários também não se sentem bem onde as regras não são claras. Isto trabalha contra a produtividade.

5 S´s e os valores individuais

6 de dezembro de 2009

Já ouvi jovens executivos ou novos gestores questionarem a importância do programa 5S na manufatura.
- Limpeza? Organização? Isso me parece pré requisito, e não vejo grandes méritos em atingir este estado na fábrica. Afinal de contas isto é uma multinacional, nossos funcionários são técnicos e não moramos na Africa.
Toda vez que escuto isso me recordo de um evento do qual fui protagonista.
Estava ministrando um treinamento sobre 5S em uma planta na Venezuela, e como dinâmica de abertura, solicitei aos treinandos que inspecionassem a sala de treinamento e identificassem deteriorações ou inconveniências na instalação. Um dos participantes, um jovem operador, me surpreendeu com a seguinte afirmação:
- Se o Senhor conhecesse o barraco onde vivo, não pediria que eu encontrasse inconveniências nesta sala. Comparado com minha casa, isto aqui está perto da perfeição.
Agradeci o funcionário pela coragem e aproveitei esta oportunidade para discutir valores individuais com o grupo.
Este acontecimento clarificou para mim a importância de um aspecto subjetivo de um programa 5S – Nivelar Valores. A fábrica é um espaço dinâmico e complexo onde pessoas diferentes compartilham tarefas, responsabilidades e o mesmo espaço físico, incluindo os ativos produtivos. Apesar de não haver glamour nos termos limpeza, organização e disciplina, os mesmos são pré requisitos para processos de melhoria, qualidade total ou manutenção da eficácia. Estes processos não terão sucesso sem comprometimento individual. Desenvolver cultura corporativa é isso. Educação para desenvolver valores de grupo alinhados com os valores da companhia. Se não conseguirmos fazer isso para manutenção da limpeza e organização como podemos ter expectativas sobre melhoria contínua, excelência em operação, sustentabilidade, manufatura enxuta e outros objetivos mais complexos?
5S é a base de uma cultura de melhoria contínua, e quem já coordenou a implementação deste programa, sentiu a dificuldade de envolver cada individuo para que o objetivo comum seja atingido.